O ex-governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz (PT), vem sendo massacrado pela opinião pública acerca da situação financeira que deixou para o sucessor, Rodrigo Rollemberg (PSD). Uma máquina inchada, dívidas diversas e um caixa praticamente vazio que não dava para pagar os salários de muitas categorias do serviço público, em especial os médicos e professores.

A mais recente denúncia da imprensa brasiliense foi a programação de compra de 40 toneladas de carne (vermelha, frango e peixe) para abastecer a residência oficial durante um ano. Olhando-se rapidamente o número, de fato, assusta: quem comeria tanta carne assim? Porém, quando aprofundamos no caso e buscamos mais informações, a situação muda um pouco. A intenção aqui não é acusar ou defender o ex-governador, mas, sim, mostrar se os tais 40.000 quilos são compatíveis com a demanda da Residência Oficial de Águas Claras.

Questões a serem consideradas

O fator que se precisa esclarecer é que os funcionários da residência oficial do governador se alimentam por lá. É fácil entender o porquê: o local fica em uma área isolada, no meio da EPTG, que não possui restaurantes, supermercados ou lanchonetes nas proximidades. Logo, a opção pelo preparo pode acabar sendo mais barata e vantajosa para todos.

O segundo fator é que o governador sempre oferece refeições preparadas na residência oficial para as visitas. Esta é uma medida de segurança adotada por quase todos os países do mundo. A comida feita fora das dependências pode vir contaminada, estragada ou envenenada. As empresas vencedoras de certames para fornecer alimentação visam, obviamente, o lucro, o que as fazem optar por ingredientes e paladares simplistas demais. Imagine servir arroz duro, feijão sem tempero e um bife de coxão duro para o Ministro das Relações Exteriores dos Estados Unidos, na capital da República. Será que ele voltaria a este país miserável, que sequer pode ofertar uma alimentação nutritiva e saborosa?

Lembro-me muito bem de caso semelhante que ocorreu com a ex-governadora Roseana Sarney, acusada de comprar vários quilos de camarão. O Maranhão é um estado litorâneo, em que o camarão não é artigo de luxo e integra a culinária local. Querer servir um prato típico da região para os visitantes é ostentação?

40 toneladas é muita coisa?

A primeira vista, o número impressora: 40 toneladas = 40.000 quilos. Só que ao fazer algumas contas básicas percebe-se que não é tanto assim. Há 70 funcionários fixos trabalhando na residência oficial – provavelmente o número oscila. Esses funcionários almoçam diariamente no local de trabalho. Segundo nutricionistas, o consumo ideal de proteínas em uma refeição é algo entre 200 e 250g. Tendo posto isto, vamos fazer alguns cálculos:

70 funcionários X 250g = 17.500g de carne por dia = 17,5 quilos por dia X 253 dias úteis = 4428 quilos por ano

Apenas os funcionários, sem contar com possíveis repetições de pratos, consomem 17,5 quilos de carne em um almoço. Em 2014, tivemos 253 dias úteis, o que dá aproximados 4428 quilos de carne consumidos. Só que nós temos também alguns que jantam no local de trabalho e aqueles que trabalham nos feriados. Vamos supor que sejam apenas 25.

25 funcionários X 250g = 6.250g de carne por noite = 6,25 quilos por noite X 253 dias úteis = 1582 quilos por ano.

25 funcionários X 250g X 2 refeições (almoço e jantar) X 112 dias não-úteis = 1.400.000g = 1400 quilos de carne

Somando tudo teremos:

4428 + 1582 + 1400 = 7410 quilos de carne

Só que este número se refere a um dado que não considera possíveis repetições, nem aquela pessoa que pega mais de um bife e o fato de ser servida sempre mais de uma opção de proteína (carne, frango e/ou peixe). Podemos, então, arredondar essa conta para algo próximo a 15.000 quilos (15 toneladas) somente consumido pelos funcionários da Residência Oficial.

Se o governador receber comitivas de 44 pessoas (é a capacidade da sala de reunião) quatro vezes na semana, teremos:

250g X 44 pessoas X 4 refeições por semana = 44000g ou 44 quilos por semana X 3 tipos de proteína = 132 quilos por semana X 52 semanas = 6864 quilos por ano no almoço + 6864 quilos no jantar = 13728 quilos ou 13,728 toneladas consumidas por ano pelos visitantes.

Ao somarmos ambos, vamos encontrar:

15 toneladas consumidas pelos servidores + 13,7 toneladas consumidas pelas visitas = 28,7 toneladas

Sim, é muito!

Logo, constata-se que mesmo extrapolando os dados e aumentando-se as quantidades, ainda assim o número fica bem abaixo das 40 toneladas encomendadas. Neste caso, a imprensa tem razão em considerar o número abusivo, não pelo fato de as carnes serem de corte nobre (picanha e filé mignon), nem pelo fato de os peixes serem nobres (como salmão e camarão), mas pela quantidade exagerada do pedido.

Das duas uma: ou as proteínas iriam se perder ou alguém poderia acabar desviando as sobras para si, configurando crime. O governador Rodrigo Rollemberg fez bem em suspender o edital e mandar revisar todas as cifras.