O título deste artigo pode soar desagradável aos ouvidos de muita gente. Vários dirão que a generalização é perigosa e que não são corruptos. Outros se defenderão inventando mil desculpas para as condutas errôneas. Alguns poucos apenas falarão mal e fecharão esta página sem ao menos ler o texto. Mas a verdade é que nós, brasileiros, temos o péssimo hábito de só enxergar a falha do próximo. Talvez seja essa a origem da corrupção: o fato de todos a praticarmos, mas de jamais nos enquadrarmos como corruptos.

Os corruptos são os vereadores, prefeitos, governadores, ministros e deputados. O presidente da República, então, é sempre o mais corrupto de todos. Não tem cor, credo, ideologia ou partido: para muita gente, só o fato de ser da classe política já é suficiente para ser taxado. Nos últimos anos, até mesmo os grandes empresários tem entrado para a incômoda classificação. Se fulano é muito rico, certamente ele é corrupto. E com essa mentalidade continuamos a nos esquivar da culpa para jogá-la nos colo de uma minoria.

A corrupção é só deles?

Nas igrejas cristãs costuma-se dizer que não existe “pecadinho” e “pecadão”. Pecado é pecado e ponto. O mesmo pode ser aplicado à corrupção. Qualquer forma de obtenção vantagens em detrimento do outro é classificada como corrupção. O que varia caso a caso é a punição (ou não) do ato. Quem nunca ouviu falar no bom e velho “jeitinho brasileiro”?

Qualquer vantagem obtida de forma irregular é considerada corrupção.
Furar a fila do banco não leva ninguém para a cadeia, mas é uma forma de corrupção.

Poucos se dão ao trabalho de analisar suas próprias atitudes, aquelas bem simples, do cotidiano. Se todos os carros estão parados em um congestionamento e alguém pega um atalho pelo acostamento, essa pessoa está desrespeitando o Código Nacional de Trânsito e sendo desleal com os outros motoristas. Logo, ela está sendo corrupta ao valer-se de uma artimanha. Se eu condeno quem recebe propina, mas valho-me de um benefício social sem estar qualificado para recebê-lo, então eu também sou corrupto.

A lista não para por aí. Tem o estudante que cola na prova. Tem o funcionário preguiçoso que consegue um atestado falso para faltar ao trabalho. Tem aquele que usa carteirinha falsificada para pagar meia-entrada no cinema e em shows. Tem a pessoa que compra o DVD pirata “porque o original é caro demais”. Certa vez ouvi o pífio argumento de que não havia problema em captar o sinal de uma operadora de TV fechada porque o “ar é público”.

“Ah, mas todo mundo faz!”

A Controladoria-Geral da União – CGU chegou a lançar uma campanha de conscientização das pessoas. Desde o final de junho, uma ação nas redes sociais divulga frases usadas para justificar pequenos desvios de conduta e delitos no dia a dia. O órgão publica mensagens que trazem desculpas variadas para estas situações que por vezes passam despercebidas: “ninguém está vendo”, “é bem rapidinho” e a clássica “mas todo faz”.

Já virou censo comum dizer que a corrupção no Brasil tem raízes históricas, que é parte do brasileiro ou que não tem solução. O que é preciso fazer para resolver esse problema é começar a combatê-lo na base, dentro das nossas casas e junto aos familiares. Se cada cidadão tiver consciência dos atos, os pequenos deslizes da rotina diária serão reduzidos até que praticamente deixem de existir. Quando a maioria da população for honesta, qual político terá a coragem de roubar?