Escrever é uma arte, pena que são poucos os que percebem isso. O jornalista deveria ser o símbolo máximo da boa escrita e o representante unânime da sociedade. O que a Academia ensina é que somos procuradores do povo, servimos a ele e buscamos atender aos seus interesses. Na prática, a nobre premissa se perde em meio a rios de dinheiro, influência política, precarização do trabalho e falta de qualificação daquele quem deveria estar pronto para informar a população.

Hoje, dia 7 de abril, é o Dia Nacional do Jornalista. A data foi criada pela Associação Brasileira de Imprensa (ABI) como uma prestação de homenagem ao jornalista Libero Badaró, assassinado em 1830, por defender o fim da monarquia e apoiar a independência brasileira. Em uma época na qual o jornalismo era exercido por intelectuais burgueses, Badaró resolveu utilizar a palavra como fonte de libertação.

Apurador de ignorância

Se Badaró fosse vivo, ficaria perplexo com o que o jornalismo no mundo moderno se transformou. Repórteres que sequer sentem o calor do sol tocando-lhes a pele. Solas de sapato que permanecem intactas pela falta de caminhada. Moças bonitas que não podem pegar chuva se não estraga a chapinha feita exclusivamente para aquela entrada ao vivo no jornal televisivo. Ah, João do Rio, por que não temos mais o seu faro investigativo?

O jornalista da atualidade virou um mero telefonista, um aglutinador de recados, um apurador de ignorâncias. Ele recebe a pauta do seu editor, liga para a assessoria, ouve a versão oficial, encontra alguém contrário e finaliza seu texto. Não há tempo – nem vontade – para uma apuração mais precisa que envolva confronto de dados, análise de documentos e investigação dos relatos. O resultado é o show de incompetências que vemos todos os dias nos jornais, na TV, nos portais de internet, nos blogs, no rádio e nas redes sociais.

A verdade é que são poucas as pessoas que realmente se dedicam a esta nobre profissão. No Brasil, me arrisco a dizer que há uma centena de repórteres de verdade. O restante utiliza-se do famoso CTRL+C e CTRL+V, replicando releases e notícias sem qualquer critério e sem ao menos checar as informações. Não é raro que toda a imprensa dê “barriga” quando o G1 ou a Agência Brasil erra. O resultado disso é uma mídia homogênea e acomodada, que não tem coragem nem para requerer seus próprios direitos.

Sucateamento da profissão

O Supremo Tribunal Federal acabou com a Lei de Imprensa e suspendeu a obrigatoriedade para o exercício da profissão. Algum grande veículo comprou a briga? Não vi nenhum. Infelizmente, a maioria dos profissionais de imprensa que conheço acha que reivindicar direitos é coisa de vagabundo, de gente que reclama de barriga cheia ou de categorias tradicionalmente sindicalizadas.

Nossos jornalistas são extremamente mal remunerados – o piso salarial no Distrito Federal, um dos estados que melhor remunera os profissionais de imprensa, não chega a R$ 2 mil mensais –, tem seus pagamentos atrasados, são demitidos à revelia do dono do jornal (os famosos “passaralhos”), pouquíssimos recebem horas extras e ainda são obrigados a conviver com péssimas condições de trabalho das redações.

A imensa parcela dos formados em jornalismo não encontra espaço no mercado restrito e politizado. Se não for parente de algum repórter ou não possuir apadrinhados políticos, dificilmente terá alguma chance nos principais veículos do país. O jeito é ir para uma assessoria de imprensa, que, além de pagar melhor, oferece a chance de o jornalista ter uma vida mais estável. A nossa classe é tão desunida que repórteres não gostam de assessores de imprensa e vice-versa.

A verdade é que fazer jornalismo sério e profissional é caro. Poucos são os que estão dispostos a bancar a conta. Além da folha de pagamento, têm-se custos com matéria-prima, gráfica, manutenção, equipamentos, diagramadores, profissionais de TI, equipe de apoio e, é claro, corpo jurídico. São tantos deslizes cometidos que fica impossível exercer o trabalho sem respaldo advocatício. Sem contar os jornalistas mercenários que aceitam escrever qualquer baboseira em troca de míseros reais. Reportagem especial ? Isso é um luxo que meia dúzia de profissionais com mais tempo de casa tem o direito de fazer, afinal é caro demais bancar uma equipe exclusiva de três ou quatro pessoas durante meses para resultar em apenas uma matéria.

“Escreve umas linhazinhas ali rapidinho”

Infelizmente, com a crise dos veículos impressos e a descrença na imprensa, o jornalismo possui muito mais desafios do que razões para comemorar. Durante as manifestações de rua pudemos presenciar o quão desacreditada está a imprensa brasileira. Repórteres eram hostilizados e violentados. A população já cansou do modelo tradicional de jornalismo elitista. Os egos inflados de alguns colegas de profissão tendem a murchar lentamente se insistirem em manter seus narizes em pé.

As redes sociais estão aí para difundir ideias em poucos minutos. Os blogs existem como alterativa à grande imprensa – e muitos dos “furos” acontecem nestas pequenas “redações”. No final das contas, todo mundo quer ser um pouquinho jornalista porque pensa que é fácil.

Mas somente quem encara diariamente a linha de frente do jornalismo sabe o quão complexa é a nossa profissão. O repórter faz muito mais do que escrever meia dúzia de informações.  Por vezes não reconhecido, seu trabalho é fundamental para a sociedade. Somos especialistas em nada, mas sabemos um pouco sobre tudo.

Utilizemos este 7 de abril para refletirmos nas nossas atitudes, nas conquistas e, principalmente, nos desafios. São muitos os obstáculos que ainda temos pela frente, mas é preciso recordar diariamente a essência do nosso ofício.

Parabéns a todos os jornalistas deste país!